Kelpie



Essa é uma história dos tempos de guerra entre humanos e o Belo Reino, quando Erik, de Iffing, filho de Hastein, o sábio, primeiro aportou nas Hébridas, quase seiscentos anos antes da perseguição aos elementais e sua Antiga Magia.

Naqueles tempos, os dragões eram montaria dos poderosos guerreiros do Outro Mundo. Senhores das Ilhas eles se consideravam desde tempos imemoriais; tinham crescido em poder, orgulho e arrogância e desejavam fazer dos humanos seus servos.

Foi dessa forma que a guerra começou. Até então, os dois povos tinham convivido em paz, respeitando suas diferenças, sem se importar com hierarquias. Quando os sidhé tentaram obter mais do que lhes era devido, a centelha da revolta imediatamente se alastrou.

Foi uma longa guerra, sangrenta e, muitas vezes, fratricida. Várias lendas foram forjadas nas batalhas que se sucederam, pois nada há de mais inspirador que lutar por sua liberdade.

Elidore, sobrinha do mestre druida Gelert, dos Mahala, nasceu durante a guerra. Toda a sua existência, desde a mais tenra infância, foi passada ouvindo histórias dos combates, ao mesmo tempo em que ela mesma era preparada como uma das orgulhosas arqueiras das linhas humanas.

Ela talvez não fosse tão bela quanto a prima, Meredith; mas não havia quem pudesse superá-la em espírito. Elidore tinha a bravura de uma guerreira; mais que isso, ela era a própria imagem da esperança encarnada: em sua presença, todos se sentiam inclinados a dar o que tinham de melhor, por mínima que fosse a tarefa.

Sua maior paixão eram seus cavalos. Cuidava deles com um desvelo semelhante ao de uma mãe com seus filhos; ao término de muitas lutas, fora repreendida por atender aos ferimentos de suas montarias primeiro que aos seus.

Talvez tenha sido por isso que, em meio a tantos guerreiros, ele a tenha percebido.

Apenas uma criatura era tão temida quanto os dragões no exército do Belo Reino. Chamavam-nos indistintamente de kelpies, os cavalos aquáticos que atraíam humanos para suas casas no fundo dos lagos, para então devorá-los.

Os kelpies que lutaram naquela guerra eram diferentes daqueles que conhecemos depois, criaturas de instinto que aguardam apenas a próxima refeição. Eram magníficos em sua forma animal, garanhões de focinhos largos e olhos profundamente negros e hipnóticos. Capazes de adotar a forma humana, eram tão belos quanto os próprios sidhé. Inteligentes e verdadeiramente diabólicos, pouco se importavam com quem estava sua lealdade – lutavam pelo prazer de lutar e eram tão rebeldes que os próprios generais do Belo Reino tinham, a princípio, relutado em usá-los.

Lotho era uma dessas criaturas sobrenaturais, mas não exatamente um kelpie. Pertencia ao povo do mar, muito mais feroz que seus primos de água doce – os each uisge.

Quando Elidore e Lotho se encontraram no campo de batalha, ele estava em sua forma animal. Pela primeira vez, a jovem sentiu dificuldades em controlar sua montaria, enquanto o garanhão sombrio pateava a sua frente, atacando-a.

Ela tentou se defender, usando magia e espada, mas nem toda a sua habilidade foi capaz de mantê-la na sela. Quando Elidore caiu, apesar dos sons da luta ao redor deles, foi capaz de ouvir o barulho de ossos se quebrando em sua perna.

Incapaz de se colocar de pé, a druidesa estava completamente a mercê de seu adversário. Ela ergueu os olhos para encará-lo, esperando ser pisoteada a qualquer momento, mas, para sua surpresa, havia um homem no lugar do garanhão.

Lotho esperou que ela chorasse de dor ou pedisse misericórdia. Contudo, a única reação que obteve da moça ferida foi um olhar altivo. Elidore lutava por algo muito maior que ela mesma; e se a morte era o preço a pagar por essa batalha, ela o aceitaria.

Ele deu as costas a ela. E, sem uma palavra, desapareceu em meio ao caos.

Quando o dia terminou e ambos os lados se recolheram para contar seus mortos e feridos, Elidore foi encontrada, febril e inconsciente.

A fratura que ela sofrera na queda estava exposta. Por três dias, os curandeiros fizeram tudo o que podiam por ela, mas a perda de sangue e a infecção que rapidamente tomara conta do ferimento tinha drenado todas as forças da druidesa.

Para salvá-la, eles tiveram de amputar-lhe a perna direita.

Por quase um mês, ela permaneceu na cama, fraca demais para se levantar. Porém, mesmo quando os cuidados que lhe prestavam fizeram com que a cor voltasse a sua face, Elidore permaneceu em seu catre.

Seu espírito se quebrara. Ela agora se considerava apenas um fardo para seu povo, visto ser incapaz de voltar a pegar em armas.

A lua nasceu cheia pela terceira vez antes que ela voltasse a estar diante de seu inimigo. Ele veio no meio da noite, quando todos dormiam. Sua magia fez com que passasse despercebido pelos vigias.

‘Sua vida me pertence, Elidore dos Mahala’

Quando ela o encarou, dessa vez não havia orgulho ou coragem em seus olhos; apenas uma profunda e tenebrosa tristeza.

‘Sim, ela pertence. Você a cobrará agora?’

‘Eu a levarei comigo, para meu povo, muito além do seu mundo’, ele respondeu, estendendo a mão para ela.

Sem protestar, ela entregou a própria mão, sabendo que ele a devoraria tão logo chegassem ao mar. E aquele pensamento quase lhe trouxe alívio.

Os vigias despertaram a tempo de ver apenas um vulto de branco, os longos cabelos soltos ao vento, segurando-se firmemente na crina de um cavalo tão negro e escuro quanto a própria noite.

Todo o povo lamentou-a, chorando a perda de sua jovem esperança. Mas a guerra continuava e a dor pela morte de Elidore dos Mahala diluiu-se na longa lista de baixas daquele insano combate – os campos estavam sempre cobertos de corpos; a terra, sempre encharcada de sangue.

Era necessário continuar. E assim, seguiu-se a peleja, às vezes pendendo para os humanos, outras, muitas mais, para os sidhé.

A época das tempestades chegou. Os dragões tiveram de ser tirados da luta, pois se tornavam mais agressivos e indomáveis diante dos trovões e relâmpagos que ribombavam ao seu redor no ar. A chuva e o vento fustigavam os guerreiros, a fumaça das grandes fogueiras apagadas deixando o ar mais pesado e viciado.

Foi no dia da grande tormenta que ela voltou.

Vinda de lugar algum, surgira uma donzela de armadura negra e rosto oculto, cavalgando um corcel majestoso, tão escuro quanto a couraça que ela usava. Por um instante, os humanos temeram a chegada de mais um terrível adversário.

Mas quando ela avançou, cortando as linhas de combatentes, foi para os sidhé que ela mostrou suas armas e, nesse momento, aqueles que estavam atrás dela perceberam que embora ela montasse com firmeza, havia qualquer coisa em seu equilíbrio que não era natural.

Sob a armadura, faltava-lhe uma perna.

A donzela não tomou nenhum duelo exclusivo para si, mas percorreu o campo por todo aquele dia, lutando ao lado dos druidas, sem jamais parar para respirar, insuflando nova coragem àqueles que a viam.

Ela desapareceu antes que os exércitos recuassem, da mesma forma que viera. Desde então, sempre que tudo parecia perdido e a desesperança se instalava nos corações dos homens, ela ressurgia em batalha, inspirando-os.

Finalmente, os sidhé foram banidos de volta para suas fronteiras. As colinas que lhes serviam de morada foram seladas; os caminhos de magia que levavam do nosso mundo para os seus bosques, apagados.

Por sua liberdade, os humanos tinham lutado... e vencido. Erik, o guerreiro de Iffing, último herdeiro da Casa dos MacFusty casou-se com Meredith, filha de Gelert dos Mahala.

Tempos de paz tinham afinal chegado.

Um ano após a última batalha, os vigias encontraram diante dos muros da vila uma égua cor de piche, carregando um cesto trançado em suas costas. Era um belo animal, mas ninguém o conhecia e muitos temeram que fosse uma armadilha – as sombras das lembranças da guerra ainda estavam muito frescas na memória.

Enquanto debatiam o que fazer, um choro de bebê cortou o ar e a égua imobilizou-se, parecendo encarar os homens com seus grandes e hipnóticos olhos.

Foi a irmã do chefe-druida que se decidiu afinal, avançando para encontrar na cesta um menino – não deveria ter mais que dois meses e imediatamente se calou ao perceber que era observado. Ela estendeu os braços, tomando-o no colo e ele se aninhou contra seu peito.

Pelos dias que se seguiram, procuraram, em vão, notícias sobre os parentes da criança. A mulher, que perdera a filha, Elidore, na guerra, rapidamente se apegou ao pequeno, que tinha os mesmos olhos de sua menina. A égua se instalara num dos estábulos mais próximos à casa deles.

Vários dos homens da vila tentaram domá-la, em vão. Sete anos se passariam desde a chegada dos dois até que ela fosse montada – pelo próprio menino que, adotado pela mãe de Elidore, ganhara o nome de Philip.

Philip deu à égua o nome de Rhianna e ela era sua inseparável companheira.

Anos depois, Philip se tornaria o segundo domador de dragões das Hébridas, ao lado de Nissa, filha de Erik e Meredith. Rhianna era o único cavalo que não recuava à visão dos animais.

Philip e Nissa se casaram. Rhianna desapareceu na mata quando a domadora engravidou, voltando apenas após o nascimento dos gêmeos de seu irmão, seguida de dois potros, tão escuros quanto ela, embora sua pelagem tivesse qualquer coisa de azulada.

Décadas se passaram até que percebessem que, toda vez que nascia uma criança na família dos domadores, também uma das éguas descendentes de Rhianna dava à luz.

Assim nasceu o costume dos domadores de, quando em certa idade, receberem um daqueles cavalos como seus companheiros fiéis – irmãos, homens e cavalos, como Philip e Rhianna, filhos de Elidore, dos Mahala e Lotho, o each uisge do mar das Hébridas.

Kelpie