CARLISLE


Take a look at my body
Look at my hands
There's so much here that I don't understand

Your face-saving promises
Whispered like prayers
I don't need them

'Cause I've been treated so wrong
I've been treated so long
As if I'm becoming untouchable

Well, contempt loves the silence
It thrives in the dark
With fine winding tendrils
That strangle the heart
They say that promises sweeten the blow
But I don't need them
No, I don't need them

(My Skin - Natalie Merchant)



O grito, inumano em sua angústia, ecoou longamente pela paisagem, reverberando pelos grandes paredões de pedra que o cercavam. Ele podia sentir os ossos, articulações e músculos rompidos na queda, já em processo de cura, a dor quase insuportável enquanto seus ligamentos voltavam a se entrelaçarem sob a pele pálida e perfeita.

Nenhuma cicatriz, nem mesmo um pequeno arranhão de todas as suas tentativas anteriores. Não fosse pelo mau jeito com que aterrissara, ele poderia ter saído andando imediatamente após a queda. Fora, contudo, seu próprio peso apoiado sobre a perna dobrada que a quebrara.

E, mesmo assim, ele continuava vivo. Imortal em sua maldição.

Ele levou uma mão ao pescoço, as unhas cravando-se na pele marmórea. Havia fogo em suas entranhas; sua garganta queimava, pontos de dor cegos, combinados ao desespero de saber no que se transformara.

Aquela era sua sina agora. O castigo por sua dúvida. Por ter questionado sua fé, ele era agora uma criatura da escuridão.

- Ó Senhor, ouve a minha oração, e chegue a ti o meu clamor. – ele rezou baixinho, cerrando os olhos, sentindo as lágrimas que ele não podia mais derramar – Não escondas de mim o teu rosto no dia da minha angústia; inclina para mim os teus ouvidos; no dia em que eu clamar, ouve-me depressa. Pois os meus dias se desvanecem como fumaça, e os meus ossos ardem como um tição. O meu coração está ferido e seco como a erva, pelo que até me esqueço de comer o meu pão. Por causa do meu doloroso gemer, os meus ossos se apegam à minha carne.

Ele não continuou sua prece, sabendo que a benção que pedia não lhe seria concedida. Se tivesse certeza de que conseguiria controlar a sede, ele teria procurado o próprio pai e pedido que ele o matasse, que terminasse com aquela existência amaldiçoada.

Carlisle respirou fundo. Embora tudo o que ele desejasse fosse a morte, Deus não a daria a ele. Fosse ou não um castigo, ele teria de aprender a conviver com o que era agora, sob a pele que era apenas um simulacro de humanidade.

Nesse instante, ele ouviu um coração bater.