Por um instante, ela sentiu a água fechar em torno de si, puxando-a para o fundo enquanto sua mente lutava para despertar do torpor de subitamente voltar a existir na forma humana, dividida entre instinto e memória.

 

Tossindo, Mina emergiu, o corpo todo tremendo pela violência da transformação. Respirando pesadamente, enxugou os olhos, piscando-os por alguns segundos para voltar a se acostumar com a luz.

 

Diante dela estava a Dama do Lago e, ao redor de ambas, o rio puxava com correnteza forte para outros caminhos e outras histórias.

 

Mas era dia ainda... o que só podia significar que...

 

A princesa levantou os olhos para o céu. A lua já estava a metade do caminho de eclipsar completamente o sol.

 

- Você precisa fazer o resto do caminho sozinha; eu a trouxe até onde podia. Mas não se preocupe, não estamos muito longe agora. – a Dama deu um meio sorriso, apontando para o barranco que se erguia a partir das margens do rio – Vá! Rápido!

 

Mina não esperou um segundo comando, apenas acenando com a cabeça em agradecimento, mal se dando conta de que à medida que deixava a água, o orvalho em sua pele parecia se cristalizar e fluir em pequenas ondas, até terminarem numa saia quase etérea enroscando-se em seus pés descalços quando ela afinal se pôs a correr em terra.

 

Aquela era sua história, aquele era o seu final feliz. Ela não precisava saber como chegara ali, o que aconteceria depois, se havia uma moral, uma lógica ou rima para todas as situações por que tinha passado desde que tinha entrado na floresta.

 

Do alto da barranceira, ela o avistou – encostado ao tronco de uma árvore, os olhos fixos no céu, segurando um lado do corpo como se estivesse ferido, completamente vulnerável.

 

Ela sentiu os olhos se encherem d’água, enquanto voltava o já familiar aperto em seu coração, puxando-a para frente, para ele, finalmente para ele.

 

Por entre as lágrimas, ela sorriu. Ali estava a ligação entre eles, independente de coroas, e anéis de flores encantadas. Ela sempre estivera ali, não? Apenas esperando que um deles percebesse, que um deles compreendesse o que ela significava...

 

A magia sempre estivera ali, entre eles mesmos.

 

- ISAAC!

 

A princesa começou a correr mesmo antes dele se voltar para ela, puxando a saia com uma mão para não tropeçar, quase sem enxergar por onde colocava os pés. Ele a encontrou no meio do caminho e, quando os braços dele se fecharam em torno dela, Mina se viu suspirando de alívio ao perceber que estava finalmente onde sempre quisera estar.

 

Em casa.

 

Isaac a apertou com força, sem acreditar que fosse verdade, que ela estivesse realmente ali, até mergulhar o rosto contra o pescoço dela e sentir o já conhecido perfume de lavanda e compreender que não se tratava de nenhuma miragem.

 

Ele estava em casa. Não importava os ‘quandos’, ‘ondes’ e ‘porquês’. Mina estava ali. De volta. Nos braços dele. Não precisava de explicações para sentir-se inteiramente contente com o resultado final.

 

Sentindo as mãos pequenas dela passarem timidamente por seu pescoço, ele levantou a cabeça, apenas o suficiente para poder encará-la. Por aquele instante, aquele momento, não havia eclipse, feitiço, Senhores da Floresta loucos, Damas Viúvas e mil e um perigos.

 

O rosto dela estava úmido de lágrimas, mas ela sorria, os olhos quase dançando de alegria, exultantes.

 

Quantas vezes ele olhara para ela durante uma dança ou enquanto conversavam nos jardins do palácio, ou quando voltavam de uma cavalgada, e ela o encarara com aquele mesmo sorriso franco, aquela mesma ternura aberta que sempre estivera ali e ele nunca percebera? Quantas vezes ele hesitara, se controlara para não acariciar o rosto querido, familiar, aquele que estava sempre em seus pensamentos?

 

Desta vez ele não tentou se reprimir enquanto deslizava gentilmente a ponta dos dedos sobre os contornos do rosto dela, imprimindo uma vez mais na mente todos os seus detalhes. Então, sem aviso, sem perguntas, sem tentar pensar demais, Isaac apenas inclinou-se para ela, obliterando o pouco espaço que havia entre os dois, colando os lábios aos dela pela primeira vez.

 

O sol estava completamente coberto pela lua.

 

Pela primeira vez na vida, Mina entendia o que significava a expressão ‘explodir de felicidade’. Seu coração parecia pulsar em seus ouvidos, na garganta, no estômago, onde uma revoada de borboletas parecia ter feito morada.

 

Ela começou a rir. Separando-se dela, Isaac apenas balançou a cabeça, para então começar a rir também, levantando-a pela cintura e rodopiando com ela até perder o equilíbrio quando as costelas deram uma nova pontada. Caíram sentados sobre o outro, ainda rindo, sem fôlego, como quando eram crianças, enquanto a lua começava a deixar o sol, mergulhando o mundo numa semi-penumbra encantada – noite e dia, dia e noite, por um único momento, antes de tudo voltar ao normal.

 

- Eu amo você. - Isaac sussurrou quando conseguiu controlar-se o suficiente, afastando uma mecha que caíra sobre o rosto dela, deixando a mão na curva de seu pescoço, sentindo a pulsação acelerada contra seus dedos.

 

Mina assentiu, ainda sorrindo, mas de forma mais tranqüila, gentil, pousando a própria mão sobre a dele.

 

- Eu amo você também. Acho que sempre amei. – ela acrescentou com um ligeiro rubor.

 

Assentindo, o príncipe a trouxe mais para perto, encostando a cabeça a dela, deixando-se embriagar com a sensação de completude que a proximidade dela lhe trazia. Não importava o que fosse acontecer a seguir: eles tinham um ao outro e ele não pretendia voltar a se separar dela.

 

Não enquanto vivesse.

 

- Mina! MINA!

 

Virando a cabeça, a princesa encontrou a figura do irmão no alto da ribanceira que ela mesma descera pouco antes, Herman montado em sua pomba voando logo atrás. Ela se voltou para Isaac, que, segurando-a pelos cotovelos, ajudou-a a se levantar.

 

- Acho que esqueci de dizer que... encontrei meu irmão.

 

Ele apenas sorriu enquanto ela se virava, encostando-se contra ele ao mesmo tempo em que Kieran jogava-se em cima da irmã, exatamente da mesma forma que ela costumava fazer.

 

Dando um passo para o lado, sem, contudo, deixar de manter uma mão junto à cintura dela, Isaac observou a figura do jovem príncipe enquanto Herman dava uma cambalhota no ar para pousar em seu ombro, quase explodindo de empolgação.

 

- Está tudo bem agora! Nós encontramos o irmão da princesa! E meu Senhor não está louco! Ele nos libertou, e nos mostrou o caminho e disse que a Dama do Lago...

 

Da mesma forma que disparara a falar sem dar chance para o rapaz sequer o cumprimentasse, Herman se calou, os olhos se arregalando ao perceber algo por trás do príncipe. Isaac se voltou ao mesmo tempo que Mina e Kieran, que também tinham percebido a comoção, encontrando um pontinho de luz ziguezagueando pelo ar na direção deles, seguido a alguma distância de um grupo razoável de pessoas trazendo um cavalo.

 

Lorelai parou a poucos metros deles, seu rosto iluminando-se com um enorme sorriso.

 

- Vocês se encontraram... O príncipe... o rei... Mina... Herman... eles conseguiram... nós conseguimos... eu... eu...

 

Ela praticamente pulou sobre Herman, abraçando-o enquanto murmurava coisas desconexas, sem parecer saber se devia rir ou chorar.

 

Foi só quando viu o homem que parara logo a frente do outro grupo, e que observava Mina e Kieran com uma expressão de quase incredulidade que Isaac compreendeu o estado da fadinha.

 

Mina escorregou a mão para dentro da dele, apertando-a de leve enquanto Kieran dava alguns passos adiante.

 

- Pai?

 

O rei Lucien sorriu.

 

- Eu estive procurando você por um longo tempo, meu garoto. Nunca mais vou deixar você longe das minhas vistas.

 

Ele avançou a distância restante para abraçar calorosamente o filho caçula. Isaac sentiu Mina apertar sua mão com mais força quando o rei ergueu os olhos para ela, ainda segurando Kieran. Sem palavras, ele apenas ergueu o outro braço.

 

Mina sorriu e, com um último olhar para Isaac, caminhou até o pai, deixando-se envolver por ele.

 

- Bem, eu posso não entender o que está acontecendo, mas parece que tudo terminou bem. – Luke observou, parando ao lado de Raven, observando a moça de lado – Você conhece todos eles?

 

- Eu imagino que a moça seja a princesa do príncipe Isaac. E, pelo que entendi, aquele é o pai e o irmão dela. A família quase toda se perdeu na floresta. Agora eles poderão ficar juntos e tentar voltar para casa.

 

O ruivo encarou-a com uma expressão curiosa, como se debatesse consigo mesmo se devia ou não perguntar o que lhe ia pela mente. Raven tentou não olhar para ele, temendo o que viria a seguir.

 

Finalmente, o rapaz suspirou.

 

- E você? Tentará voltar para casa conosco?

 

A cigana piscou os olhos, surpresa. Aquela não era exatamente a questão que esperava.

 

- Eu... acho que sim. – ela respondeu – Vai ser um longo caminho e, bem...

 

- Longo o suficiente para que você confie em mim para contar nossa história?

 

Raven voltou-se completamente para ele, observando-o atentamente. Ele não a estava pressionando para que ela explicasse suas palavras enigmáticas, não estava exigindo que ela lhe respondesse... em vez disso, estava praticamente convidando-a a ficar à vontade e levar as coisas em seu próprio tempo.

 

Ela sorriu. Talvez aquilo não fosse tão difícil assim no final das contas...

 

- Sim. Tenho certeza que será longo o suficiente.

 

E foi nesse instante que eles ouviram o barulho de folhas e vento e, como que por encanto, perceberam a trilha limpa e bem marcada mais adiante.

 

A história chegara ao fim. O caminho para fora da floresta estava aberto para eles afinal.

 

~*~*~*~

 

Os dois exércitos estavam frente a frente, a floresta silente atrás das fileiras da cavalaria do general Goddriac. Era claro que nenhum dos lados queria ser o primeiro a atacar, ainda que tivessem chegado até ali. Estavam, é claro, num impasse.

 

Isso não poderia durar para sempre, contudo.

 

Controlando com mão firme as rédeas de seu alazão, o homem passou mais uma vez em revista as tropas, sentindo a tensão que irradiava de seus homens.

 

Foi quando a música começou.

 

Repentinamente, vinda de lugar algum, uma melodia suave, notas soltas sopradas dolentemente numa flauta, envolveram o campo em que as armadas esperavam. O vento parou de soprar por alguns instantes, para então voltar com redobrada força, derrubando folhas rubras e douradas sobre os gramados já secos do início de outono.

 

Algo irrompeu da floresta, furando o bloqueio dos homens. Com a facilidade advinda da prática, o príncipe Isaac refreou seu cavalo, observando quase que com incredulidade as legiões posicionadas. De sua garupa, a princesa Mina deslizou, voltando-se para o caminho que tinham acabado de abrir, de onde mais pessoas se aproximavam.

 

O general sentiu o ar faltar ao reconhecer quem vinha à frente do curioso grupo, sensação logo substituída pela vontade de gargalhar de alívio. Encorajando seu animal, ele marchou até aproximar-se o suficiente deles, para então apear e, com uma mesura praticada, ser o primeiro a cumprimentar os recém-chegados.

 

- Meu rei.

 

- General Goddriac. – Lucien avançou o resto da distância, aplicando o vigoroso abraço no velho amigo – O que significa isso tudo?

 

- Eu bem gostaria de saber responder-lhe, senhor, mas acho que já não sei mais. – desta feita, ele riu – Acho que precisamos encontrar alguém do lado de lá que nos traga o rei Kyle para resolver essa patacoada.

 

- Isaac já foi fazer isso. – Mina observou, parando junto a eles e acenando com a cabeça para o general – Acho que precisamos da minha mãe aqui também.

 

- Eu vou arranjar alguém para resolver isso agora mesmo, alteza. – ele respondeu – Embora eu tenha a impressão de que a qualquer momento vou acordar com uma ressaca dos infernos, porque tenho quase certeza que estou delirando.

 

- Eu não tenho muita certeza se você deveria estar usando esse tipo de linguagem na frente da princesa, general. – pousando sobre a cabeça de Mina, Lorelai cruzou os bracinhos, encarando o homem com uma expressão beligerante.

 

- Não se preocupe com isso, general. – Mina retrucou, revirando os olhos.

 

- Bem, Lorelai, tem uma certa razão, existe uma etiqueta a ser cumprida, além disso... – Herman apareceu ao ombro dela - ...eu não tenho certeza se ser resultado de uma ‘ressaca dos infernos’ seja alguma espécie de elogio e...

 

- Estamos sendo atacados agora por uma armada de pequeninos guardiões dos bons costumes? Minha esposa certamente gostará da idéia...

 

- LUCIEN!

 

Kyle estava agora bem no meio do campo, ao lado de um Isaac obviamente contrariado. O homem parecia incapaz de decidir se devotava sua atenção para o filho ou para o amigo, de forma que avançava quase arrastando o rapaz pelo ombro, sem querer largá-lo por medo de perdê-lo novamente.

 

- Creio que essa seja minha deixa para assinar o tratado de paz. – Lucien observou – Embora eu não tenha certeza se quero ouvir os termos do tratado que Kyle tenha em mente...

 

Ele observou isso com um olhar quase divertido para Mina, que apenas ruborizou e baixou a cabeça, Kieran rindo baixinho ao lado dela.

 

Os dois reis se puseram um diante do outro.

 

- Eu quero ouvir a história toda depois, de preferência bebendo um bom vinho para que eu possa ser capaz de acreditar em todos os detalhes, mas antes que possamos passar às comemorações, eu realmente gostaria que você aliviasse a mente de um velho pai e me concedesse de uma vez a mão da sua filha para esse rapaz, porque, francamente, não sei se meu coração suportará da próxima vez que ele decidir segui-la para algum passeio pela floresta ou coisa do tipo.

 

- PAI!

 

- Você pediu por isso, Isaac. – Kyle respondeu simplesmente, a essa altura já se divertindo com a situação – Quem vai saber em que tipo de loucura você vai se meter por causa dela a seguir e além disso, eu gostaria de ter netos em algum momento ainda neste século.

 

Mina escondeu o rosto entre as mãos, quase desejando estar de volta a na floresta, enquanto Lorelai batia palminhas, empolgada.

 

- Netos! Bebês! Que maravilha! Posso ser fada-madrinha deles também?

 

- Você provavelmente os transformaria em tartarugas da próxima vez. – Herman observou.

 

- Isso não está acontecendo comigo... – Mina suspirou.

 

Kieran deu tapinhas amistosos em seu ombro enquanto os outros ao redor tentavam não rir.

 

- Bem, pense dessa forma, Mina, essa é uma história que certamente passará a posteridade. É, provavelmente, o pedido de casamento mais público e mais participativo de todos os tempos. E, se posso dar minha opinião, eu também gostaria de ter sobrinhos.

 

Ela arqueou uma sobrancelha.

 

- Eu deveria ter deixado você na floresta. Que tipo de final de história mais cretino é esse?

 

- Eu acho que a autora tem um senso de humor bizarro, para ser sincero. – ele respondeu, sem deixar de sorrir.

 

- Mina?

 

A princesa voltou a erguer a cabeça para encontrar o pai com a mão estendida para ela. Respirando fundo, ela se aproximou, aceitando o contato que ele lhe oferecia.

 

- Kyle, eu não pretendo obrigar minha filha a aceitar seu pedido, ainda que eu acredite que ela seja parcial ao príncipe Isaac... Além disso, eu estive longe por muito tempo e gostaria de poder apreciar um pouco minha família antes de ter de me separar da princesa novamente... mas, a despeito de tudo o que eu possa achar, acho que essa é uma decisão que deve ser feita por eles, com a nossa mínima interferência e sem a ameaça de uma guerra pairando sobre as cabeças de ambos. Não me parece um começo muito auspicioso para um casamento.

 

- Muito bem... – Kyle se voltou para o filho – Isaac?

 

- Não foi minha idéia dar esse espetáculo, pai. – o rapaz respondeu, quase entre dentes.

 

- Bem, foi sua idéia desaparecer na floresta e quase nos matar de preocupação.

 

O príncipe suspirou, balançando a cabeça e, dando um passo para frente, voltou-se para Mina.

 

- Eu não tinha imaginado que as coisas fossem acontecer dessa forma... mas eu ficaria realmente feliz se você me desse permissão de cortejá-la.

 

Foi a vez da moça sorrir, dando de ombros.

 

- Eu não me importaria se você quisesse uma festa de noivado amanhã, Isaac. Não é preciso marcar uma data de casamento e, bem, estamos todos aqui, já... Considerando tudo, acho que já me cortejou o suficiente para eu ter certeza de quais são as suas intenções.

 

Ela não esperou que ele desse uma resposta, soltando-se da mão do pai para então abraçá-lo. Lucien suspirou, enquanto Kyle ria em silêncio.

 

- Acho que temos uma resposta... e um baile para preparar também.

 

- Um baile é exatamente o que está faltando agora. – uma voz suave e quase embargada soou às costas deles. O rei se voltou tão rápido que quase perdeu o equilíbrio. Meridiana sorriu, os olhos claros brilhando com as lágrimas mal contidas – Afinal, temos muita coisa a comemorar. Seja bem-vindo de volta, meu rei.

 

Quase trôpego, ele se aproximou, tomando as mãos da esposa entre as suas, encarando-a longamente.

 

- É bom estar de volta, querida. Finalmente.

 

~*~*~*~

 

Sentados lado a lado sobre os galhos de uma das árvores mais altas às bordas da floresta, o Bardo e a Dama do Lago observava a cena que se desenrolava diante deles.

 

- Você não pode dizer que eu não tenha pensado em tudo. – ele observou, sorrindo de lado – E bem a tempo também.

 

- Ainda não tenho muita certeza se concordo com seus métodos. – ela respondeu - Você teve sorte, Lusmore. As coisas poderiam ter acabado muito mal.

 

- Mas não acabaram. Pelo contrário, eles fizeram tudo o que era necessário e ainda deram as deixas para novas histórias. Na colina, a Dama Viúva agora espera redenção. No poço, as tecelãs começaram outra tapeçaria. Outros destinos se perdem e se encontram na floresta. A profetisa terá as mãos cheias em breve.

 

A Dama assentiu.

 

- Temos de nos preparar então. Para a próxima história.

 

- Antes, deixe-me colher um pouco mais os louros desta. – ele girou a flauta por entre as mãos – Gosto de ver um trabalho bem feito.

 

- Você é terrível, Bardo.

 

- Eu sei... mas agora você está de volta. Posso me dar ao luxo de ser bom por algum tempo. – ele piscou um olho – Ao menos até aparecer algum novo incauto que eu possa aterrorizar...

 

Ela apenas revirou os olhos, sem, contudo, deixar de sorrir.

 

~*~*~*~

 

Era uma vez um príncipe e uma princesa que tinham crescido juntos, amigos e companheiros de infância, até que, um dia, perceberam que se amavam.

 

Era uma vez uma fadinha atrapalhada, nascida de um botão de flor, de uma semente cuidada por um duende jardineiro.

 

Era uma vez um rei e seu filho perdidos, uma cigana em busca de seu destino, uma dama adormecida, um bardo em busca de sua senhora.

 

Era uma vez uma floresta encantada, em que as histórias se cruzavam como padrões de uma tapeçaria, ou como delicadas teias de aranha, cada fio encontrando dezenas de outros, influenciando uma série de outros contos, uma série de outras vidas.

 

Talvez mais importante que as histórias fossem as memórias delas, o esforço de nunca, jamais esquecer daquilo que importava, dos motivos que tinham posto as engrenagens da história para funcionar: uma garotinha num poço, uma semente perdida, uma coroa de flores...

 

Há outras histórias lá fora, outros amores, outros duelos, outros reencontros. Aqui chegamos ao final, mas basta querer para recomeçar, entrar mais uma vez na floresta e ouvir a canção do Bardo.

 

Basta querer e repetir uma vez mais “era uma vez...”



 
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